sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sua Luta para o Boi Continuar Vivo

Mestre Elpídio e o Boivivo
Texto de Lenilton Lima


Mestre Elpídio
Mestre Elpídio figura importante e imponente do folclore potiguar, das andanças de Natal a Parelhas que chegavam a durar até seis meses, nessa época mostrava a Maruja do Mestre Manoel Curto seu amigo e cunhado. Quando resolve ter sua própria Maruja adere aos palcos do Prefeito Djalma Maranhão onde se tornam amigos e compadres, "na prefeitura tinha livre acesso ao seu Gabinete" relembra Mestre Elpídio.

Depois da cassação do Prefeito Djalma Maranhão, Mestre Elpídio se torna um ilustre desconhecido pela mídia, pela sociedade e autoridades culturais. Caçado juntamente com o compadre/Prefeito como costumava frisar em seus desabafos.

“Só voltei a trabalhar pela Prefeitura de Natal na época do Prefeito Garibaldi Filho porque quem ficava na frente da cultura foi Gileno Guanabara".  Depois de Garibaldi, Mestre Elpídio volta ao anonimato e passa a freqüentar grupos da terceira idade em Parnamirim. Onde se gabava dos prêmios que ganhava nas competições entre os idosos. Tudo que fazia se destacava.



Costuma falar das mulheres que passaram por sua vida, no total 36 mulheres e 21 filhos, sempre com um sorriso no rosto se divertia sobre o assunto.

O centro de direitos humanos e memórias populares entraram em contato com o mestre colheram imagens e informações, mas não lhes deram o reconhecimento que o mestre tanto desejava.
Foi com a professora Vera Rocha que mestre Elpídio chega ate a Capitania das Artes e esta sem “recurso” a envia Mestre Elpídio e o brincante de Boi de Reis Manoel Morosoia para a República das Artes, onde faz seu primeiro contato com a figurinista Kátia Dantas e o ator João Maria Pinheiro.

O Boi Calemba tinha poucas máscaras, seu figurino e adereços estavam descaracterizando o Boi, no Jaraguá as estampas era de um desenho animado do Walt Disney.

O que Mestre Elpídio queria era colocar seu Boi Calemba para brincar, e a República das Artes virou sua parceira. Fizemos orçamentos para Prefeitura de Parnamirim e divulgamos a importância do Boi para o Rio Grande do Norte.

 E a brincadeira não pode parar...

Foi na República das Artes que foi feito o primeiro figurino do Boi, na sede do Grupo de Teatro Artes e Traquinagens tendo no trabalho a coordenação de Kátia Dantas e uma equipe de voluntários, o figurino fazia parte de um trabalho de encenação do então aluno de artes João Lins. Na ocasião da encenação o Boi Calemba sobre o comando de Mestre Elpídio recebe o figurino.

A reivindicação a Prefeitura de Parnamirim é atendida, dos 10 mil reais pedido 2 mil reais foram entregues nas mãos do Mestre. O que me admirou foi o que o mestre fez, mandou fazer um figurino da forma que ele queria. Fez-nos ver seu grande conhecimento e que a descaracterização do seu Boi se dava pela falta de apoio a cultura do nosso Estado, e daí por diante trabalhamos pela originalidade e valorização do Boi Calemba.


As máscaras antigas com a armação de metal foram doadas pelo mestre Elpídio ao Boi de Buracos e o Mestre fez tudo como se fazia antigamente. Vinte e uma máscaras foram feitas de papel de embrulho e grude em formas de barro, um boi e um bode também foram feitos pelo Mestre.

Na saída da República das Artes do prédio da antiga TV Universitária na Cidade Alta para o Alecrim em 2007. A feira se torna o ponto de encontro entre artistas da República das Artes e a Maruja do Boi. Na reunião na nova sede da República o projeto Arte no Grito é assumido por todos da Associação República das Artes, a primeira intervenção cultural e feita no dia 06 de junho de 2008, a presença de mestre Elpídio, Damião Rabequeiro, Luciano Elpídio, Luiz Targino e Bia são uma constante. Mestre Elpídio compra a idéia e quando não estava se apresentando ficava nos cortejos do evento, O Mestre participa de mais de 14 intervenções na feira e vira personagens conhecido pelos feirantes e clientes da feira, sua alegria e desenvoltura nas ações da associação é sempre motivo de muita alegria para todos.

Com o prazo de inscrição dos editais para Pontos de Cultura do RN acabando João Lins, Lenilton Lima e Ana Luiza Palhano, sentam pra fazer o projeto do ponto de cultura na casa da educadora Mônica Palhano Campos. Durante cinco dias que são trabalhados os projetos Boivivo e Mão nas Artes.

De inicio achávamos que o projeto de encenação de João Lins poderia ser adequado ao projeto do Ponto de Cultura. Mas o projeto de encenação não dava para adequar a proposta de um Ponto de Cultura. Tínhamos 5 dias e não tínhamos nada. A não ser as vivências de Mestre Elpídio e o resto era a parte técnica.

Nasce o Boivivo do carinho e compromisso do mestre Elpídio com o alto do Boi de Reis. A equipe foi formada pela Arte Educadora Ana Luiza Palhano Campos, Lenilton Lima e João Lins.

Durante esse período Mestre Elpídio ganha o Prêmio Humberto de Maracanã de Culturas Populares que recebe o prêmio em vida e depois o ganha o Prêmio Cornélio Campina que ainda não recebeu, ainda em vida foi homenageado pela prefeitura de Parnamirim. Se o Mestre estivesse vivo seria um dos agraciados pelo benefício da Lei do Patrimônio Vivo.

Com sua morte aos 83 anos em uma enfermaria lotada sem colchão apropriado, cadeiras pra tomar banho e fazer suas necessidades fisiológicas, banheiros quebrados, sem dinheiro para comprar remédios e a ainda com a família passando necessidades. Além disso, o hospital não tinha equipamentos para fazer os exames e o Mestre Elpídio mesmo com a suspeita de câncer na próstata e tumor cerebral tinha que se deslocar para clínicas em outros bairros.

Foi assim que Mestre Elpídio se despediu cercado por seus familiares, ex-mulheres e amigos. “Nenhuma autoridade política ou cultural lhe fez visita”. Desabafa Carlos Elpídio, filho do Mestre.

Saudades de quem realmente era Mestre...


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