Obras do aeroporto de São Gonçalo do Amarante prejudicam a ultima família produtora de artesanato em cipó do município.
Com a morte da Romanceira Dona Militana um grande espaço vazio fica na cultura, já que ela seria umas das últimas. Sua filha, sua neta são lembradas para levarem a frente o trabalho já que Maria José Salustino (Militana) herdou do Mestre de muitas artes do folclore o seu pai Atanásio Salustino e será possível que esse dom ainda esta na família? Mas o tempo corre e sua sucessora ainda é uma dúvida e o espaço vazio começa a ser preenchido por uma certeza. Sobraram os DVDs, fotos e vídeos dos romances ibéricos.

Muito parecida fisicamente com a irmã mais velha, Maria das Dores há principio, um pouco desconfiada, mas com tempo torna-se receptiva às visitas.
Com 68 anos, Maria das Dores do Nascimento, nascida no Sítio Oiteiro é irmã mais nova de Dona Militana, filha de Atanásio Salustino e Maria Militana. Também herdou do Grande Mestre do folclore norte-rio-grandense o dom do improviso em seus versos.
Maria das Dores do Nascimento artesã há 60 anos, Conhecida pelo seu trabalho em cipó é proibida de tirar a matéria prima para seu artesanato mesmo estando nesse trabalho desde os oito anos.
Ir a mata é sempre uma aventura dependendo das encomendas, de uma a duas vezes por semana. Os perigos de cobras e insetos fazem parte das histórias contadas por Dona Maria Dores, que mesmo assim com a felicidade estampada no rosto comenta que “essa é a parte do serviço que mais gosta”.
A jornada da família começa às 6 da manhã e termina às 16 horas, o almoço e lanche e feito na mata. No dia da independência (07 de setembro) Dona Maria brinca e diz que iria desfilar na mata.
" O que quero é voltar tirar cipó na mata de São Gonçalo, faço isso desde 1950 quando ia com meus pais"
O amor pelo artesanato é passado de geração em geração, a sua filha Laudaci Maria, já tem sua neta de 3 anos Edeyne Ludmila ao seu lado descascando o cipó.
“Proibiram-nos de tirar cipó na mata aqui pertinho, estão botando a mata abaixo e agente não pode tirar uma planta que quando cortada se multiplica e em seis meses pode ser colhida novamente. Temos que sair de São Gonçalo do Amarante pra colher cipó em Gramorezinho, Genipabu ou estrada de Touros, antes trazíamos o cipó na cabeça, de carro de mão ou de carroça, não pagávamos nada hoje temos que desembolsar de 60 a 80 reais de frete”. Desabafa Laudaci.
Laudaci mostra sua insatisfação e revela que já está perdendo o amor pelo artesanato e que já fez um curso de enfermagem para abandonar o artesanato pelas dificuldades de conseguir matéria prima.
Maria das Dores produz artesanato rústico que aprendeu com seu pai mestre Atanásio e já Laudaci aceita desafios e produz um artesanato refinado.
Os avanços estão chegando com o futuro aeroporto, a copa do mundo, as olimpíadas. Mas esses “avanços” têm que serem planejados junto ao povo, respeitando os costumes e tradições. Se não for assim fica claro para quem deve ser esses avanços.
E o Oiteiro não se cala...
“Morreu Edne Pereira
em situação singela
chamou e ninguém socorreu,
o cimento foi seu leito
e faca sua vela”.
Fragmento da composição de
Dona Maria das Dores.
Temos que ter o cuidado para que nosso povo não perca o pouco que tem para os poderosos, e que nossa arte e costumes não sejam substituídos por outros. O que produzimos tem que ser (re) conhecido pelos que vem de fora e respeitado e valorizado por nos mesmo.
Fotos
Lenilton Lima
Lenilton Lima
Apoio e Iniciativa
Ponto de Cultura Boivivo
Boi Calemba Pintadinho
Pedubreu
Congos de Calçola
Bambelô da Alegria
Nenhum comentário:
Postar um comentário