quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O PASTORIL DO RIO GRANDE DO NORTE – PROF. DEÍFILO GURGEL

Texto: Deífilo Gurgel - Foto e Vídeo: Lenilton Lima



Pastoril Dona Joaquina
46º Festiva Nacional de Folclore-Olímpia/SP
            O Natal é para o povo nordestino um período de festas e representações dramáticas que vão do anúncio do nascimento do Menino Jesus aos Pastores, a adoração dos pastores ao Doce Infante, a adoração dos Três Reis Magos e o Massacre dos Inocentes. Dramas e representações, numa mistura de elementos pastorais, alegóricos, bailados, textos e canções, que chegaram ao Brasil pelas mãos dos colonizadores, havendo registros destes em frente aos presépios na província pernambucana no século XVI.



Para importantes estudiosos, como é o caso do paulista Mário de Andrade, os Pastoris nunca tiveram repercussão verdadeiramente nacional. Conservaram-se na sua terra de fixação primeira: o nordeste brasileiro. Se em todo o Brasil há festas para celebrar o Natal e o presépio é utilizado em todas as regiões, os pastoris e seus dramas não se estenderam para outras regiões. É também no nordeste que ele se recria e adquire características mais populares e alegres, ainda que permaneça uma brincadeira de mocinhas e pertencente ao ciclo de festejos natalinos traz como marca principal a herança recebida de avós, bisavós e todas as matriarcas da região de onde se origina o grupo.

Apresentação na festa de posse da atual
comissão de folclore Rio Grande do Norte
O Pastoril do Rio Grande do Norte guarda alguma coisa do espírito religioso que o caracterizou através dos anos. Dois cordões de pastoras, vestidas de azul e encarnado, cantam jornadas de saudação ao público, louvação ao Messias e exaltação ao próprio Pastoril. Sendo esta, aliás, a característica maior dos pastoris potiguares: o espírito de emulação entre grupos da mesma cidade, manifestado nas jornadas de desafio ao rival e, também, entre as duas cores com as quais se vestem. À frente dos cordões estão a Mestra – no cordão encarnado – e a Contramestra – no cordão azul – mediadas por uma pastora vestida de branco, azul e encarnado ou somente azul e encarnado, chamada Diana que tem a função de apaziguar os ânimos. Na realidade, o caráter religioso é cheio de teatralidade, mas é nos elementos sociais profanos que ele se enche de riso e da participação popular. O sentido mais extraordinário do folguedo é sua representação  quer sejam no cortejo, nas danças ou cantorias, despertando o riso, a alegria e a participação dos que o assistem e torcem por suas cores.

Desde os tempos mais remotos, Pastoril caiu no gosto do povo do nordeste brasileiro e no Rio Grande do Norte, notadamente em São Gonçalo do Amarante, cidade de origem do Pastoril Dona Joaquina, responde por uma importante parte de sua tradição e história, cuja história é motivo de orgulho para seus habitantes, permanentemente citada pelos maiores estudiosos de folclore como de uma autenticidade ímpar.

Participação do Pastoril Dona Joaquina
no Projeto arte no Grito na Feira do Alecrim
Essa recriação brasileira dos autos vindos da Península Ibérica, trazidos pelos portugueses durante a colonização, chegou a São Gonçalo do Amarante pelas mãos das famílias portuguesas advindas de Pernambuco e fundadoras da cidade, pelos anos de 1700, encontrando no solo fértil dessa região, força para persistir até os dias atuais. Oriundo dos dramas litúrgicos representados nas Igrejas, aos poucos se desvinculou dessa característica natalina, tornando-se o folguedo de maior aceitação popular no Município.

O Pastoril do município de São Gonçalo do Amarante tem uma história de mais de cem anos e o Pastoril Dona Joaquina retomou as atividades dessa manifestação há cerca de sete anos, após um período de “adormecimento” da brincadeira, trabalhando com as velhas mestras e com a autenticidade exigida pelo folclore objetivando recuperar a paixão pela brincadeira, totalmente formado por netas e bisnetas tanto do Pastoril Estrela do Norte (décadas de 60, 70 e 80) quanto do Pastoril Flor de Lírio (décadas de 30, 40 e 50), como forma de homenagear suas mães, avós e bisavós.



Sede da República das Artes - Alecrim em Natal/RN

Faz-se importante mencionar que em São Gonçalo do Amarante não somente persiste o Pastoril Tradicional Religioso com jornadas contam o Anúncio do Nascimento do Menino Jesus, a ida à Belém e a Adoração dos Pastores ao Doce Infante, mas também o Pastoril Profano com suas brincadeiras e canções apimentadas. Este último, no entanto, diferencia-se da versão pernambucana do auto porque, apesar das da eturpações, da inclusão de música e textos profanos, nunca chegou a incorporar a licenciosidade, a imodéstia dos trajes, gestos e costumes que caracterizam o Pastoril popular de Pernambuco.

Um comentário:

  1. Lenilton/Boivivo,
    O Pastoril Dona Joaquina contradiz a velha máxima de que o folclore somente é feito por pessoas de mais idade, pois seus componentes - pastorinhas e músicos - são em sua maioria adolescentes. Contudo, com a autenticidade exigida pelo folclore, constatada pelo mais renomados estudiosos e com as lições aprendidas de seus bisavós, avós e pais lutam e defendem bravamente as tradições dos velhos mestres.
    A postura de simplicidade e delicadeza não traduz de imediato com o que realmente são e a força que possuem: guerreiras e guerreiros em defesa do folclore de São Gonçalo do Amarante e do Rio Grande do Norte.
    Não há tristeza em suas vidas, mas alegria, delicadeza e conhecimento de tradições seculares que encantam as pessoas e, especialmente, orgulho por terem partidários fiéis as suas cores: encarnado e azul.
    Obrigada por estar conosco em tantos momentos - maus e bons -, por entender quando sofremos, por "puxar as orelhas" para que não percamos o fio que nos conduz.
    Obrigada pelo respeito e por nos permitir pensar que será estará conosco.
    Beijão

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